Atentado na França

Tornou-se comum, em praticamente todas as publicações da imprensa, especialmente na França, slogans se referindo à liberdade de expressão como no Le Figaro “A liberdade assinada” e Le Parisiense “Eles não mataram a liberdade”, o que reflete em grande parte o pensamento da grande mídia e da sociedade de uma maneira geral. Entretanto a situação é um pouco mais complexa e não podemos nos contentar com essas manchetes emotivas.

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É preciso ir fundo na situação socioeconômica do país que abriga mais de 6 milhões de muçulmanos. O questionamento que faremos aqui não tem a pretensão de defender o terrorismo ou ser contrário ao jornal satírico Charlie Hebdo, mas tentar entender o que moveu esses atentados que sem dúvida foram bárbaros e injustificáveis.

Para entender melhor o que aconteceu é preciso conhecer um pouco mais sobre a realidade francesa, sua população e desigualdade social, sem deixar de lado a reflexão do verdadeiro significado da liberdade de imprensa.

Na Europa há muito tempo vem ocorrendo um sentimento anti-islâmico que se acentuou, como em todo o mundo, após os atentados de 11 de setembro de 2001, reflexo da própria propaganda ideológica propagada por boa parte da mídia internacional, onde os islâmicos passaram a ser vistos como fanáticos e terroristas. Praticamente sinônimos: todo muçulmano é fanático, todo fanático é terrorista logo todo terrorista é muçulmano, o que é um tremendo absurdo e uma grande mentira.

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Existe uma verdadeira islamofobia em boa parte do mundo onde a religião islâmica é vista como uma religião que prega o terror e o mal, o que em hipótese alguma é verdadeiro. Existem sim correntes de fundamentalistas que interpretam os textos de forma radical e transformam essa verdade em atos de ataque em nome de Deus, onde as pessoas são doutrinadas desde pequenas a viver com essa realidade, mas é muito importante ressaltar que isso não é o verdadeiro princípio do islamismo, mas uma prática de alguns grupos radicais investidos de certa autoridade diante de parcelas da população muçulmana.

É fundamental lembrar que esses terroristas cometeram um ato de “vingança” em nome de Deus, o que por si só já seria um absurdo, atos que respondem às provocações que o jornal Charlie Hebdo sempre promoveu, não apenas contra o Islã, mas em relação às três principais religiões monoteístas e a diversos setores da sociedade, da economia e da política.

No caso do islamismo um elemento a mais. Para a fé islâmica é um pecado grave representar de qualquer forma o Profeta ou Alah, pois na concepção dos muçulmanos, isso poderia representar ou promover uma forma de idolatria. O simples fato dos cartunistas desenharem o Profeta já constituiu uma ofensa ao islamismo, mesmo quando eles alegam que a crítica não é ao islamismo ou ao Profeta, mas aos fanáticos que distorcem a fé.

Em países como Alemanha, França e Inglaterra vem crescendo à medida que aumenta a crise econômica, uma grande onda de xenofobia e um pensamento nacionalista extremamente radical e tão agressivo quanto os atos terroristas. A comunidade islâmica vem crescendo consideravelmente na União Europeia (UE), não apenas pela elevada natalidade ou por conversão religiosa, mas também pelo elevado número de migrantes que cresce de forma acelerada.

Essa migração é reflexo de alguns fatores tais como: o crescimento da própria UE, com a adesão de países com grande número de muçulmanos, a facilidade migratória pelo Leste Europeu e de repúblicas que compunham a antiga União Soviética, além de africanos provenientes de ex-colônias europeias na África, favorecidos pela proximidade territorial através do Mediterrâneo.

O grande fluxo migratório não é constituído apenas por muçulmanos. Além dos africanos existem grandes contingentes de latino-americanos, asiáticos e uma forte migração interna de europeus de países menos desenvolvidos para países mais desenvolvidos. Esses fluxos migratórios são apontados por muitos como um dos principais motivos para o desemprego e toda a recessão que muitos países “ricos” vem enfrentando nos últimos anos e, com isso o aumento do preconceito de todas as formas inclusive, em muitos casos, de violência física contra imigrantes. As posições radicais que a sociedade toma contra as minorias – o que não é uma exclusividade da Europa – contribuem para que ocorram revides cada vez mais violentos.

Ao mesmo tempo em que vivemos em um processo democrático onde a liberdade de expressão é fundamental, é preciso lembrar que o direito à liberdade pressupõe respeito. Não se trata de censurar ou proibir determinadas manifestações, mas respeitar a cultura, religião opção sexual, posicionamento político, mesmo quando não concordamos com opiniões divergentes da nossa, caso contrário não estaremos convivendo em uma democracia. Evidentemente que nenhum desrespeito deve ser retrucado com violência, aliás, todas as formas de violência devem ser evitadas ao estremo.

O fato é que a Europa vive um verdadeiro e crescente processo de islamofobia inclusive manifestada por parte das autoridades e personalidades políticas do continente como citado por Marine Le Pen, um dos principais expoentes da extrema direita francesa, em um discurso: “a nação foi atacada, a nossa cultura, o nosso modo de vida. Foi a eles que a guerra foi declarada”.

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A resposta da sociedade e das autoridades europeias, em especial na França, irão determinar o futuro das relações entre o ocidente e o oriente, principalmente com relação às minorias sociais entre as quais se destaca o islamismo. Cabe aqui lembrar um dito popular, que apesar de “lugar comum” reflete bem esse momento: “violência gera violência”.

Para ir mais fundo leia os textos ab baixos, um escritos por Leonardo Boff e outro publicado na Revista Carta Maior

Reflexão de Leonardo Boff sobre os atentados na França e a liberdade de imprensa

Carta Maior – texto muito interessante que ajuda a entender porque o Islã não é o responsável pelo terrorismo.

Link para download: Texto_blog_frança